Em 1992, a antropóloga americana Helen Fisher fez res-sonâncias magnéticas ao cérebro de pessoas reciém-apaixonadas e descobriu algo incómodo: as zonas cerebrais ativas durante o amor são quase idênticas às ativadas na dependência de cocaína. Os mesmos circuitos neuronais. A mesma euforia dopaminérgica. Esta descoberta perturbadora revolucionou a nossa compreensão da escolha do parceiro e revelou-se fundamental para entender a biologia da coparentalidade.

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Três fases de que ninguém nos avisa

A neurobiologia da vinculação de casal distingue três fases, cada uma dirigida por diferentes hormónios e áreas cerebrais. Sucedem-se em geral, mas podem sobrepor-se.

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Fase 1: Atração — testosterona e estrogênios

A primeira fase é a mais efêmera: a atração sexual, desencadeada por andrógênios e estrogênios. Serve para iniciar o acasalamento. É cega à compatibilidade pessoal e tem pouco a ver com o que faz um bom progenitor.

Importante: a atração não é um indicador de qualidade da vinculação nem de aptidão parental. Muitas pessoas confundem atração sexual intensa com conexão profunda. É neurobiologicamente explicável e uma das fontes mais frequentes de desilusooes em relações românticas e na coparentalidade.

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Fase 2: Paixão romântica — dopamina e serotonina

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Fase 3: Vinculação — ocitocina e vasopressina

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Ovulação oculta: um truque evolutivo com 300 000 anos

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O teste da t-shirt suada: o sistema imunitário como agência de encontros

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Sincronização do casal e o que isso significa para os filhos

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Genes relacionados com a vinculação

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Stress, separação e o que acontece à biologia

Quando um vínculo de longa data termina, acontece neurobiologicamente algo semelhante à abstînça de uma substância: queda de dopamina, aumento de cortisol, ativação de áreas cerebrais também ativas na dor física. A dor da separação é neurobiologicamente uma dor real.

Para a coparentalidade após separação: ambos os progenitores podem encontrar-se num estado fisiológico de stress que limita a sua capacidade de cooperar. Os arranjos estruturados de coparentalidade reduzem a necessidade de processamento emocional no momento da interação e protegem assim a criança.

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O mais importante

O amor não é um fenómeno místico. É um sistema neurobiologico complexo concebido para a reprodução, a vinculação afetiva e a criação cooperativa. A coparentalidade, quer surja de uma relação romântica quer de uma decisão consciente, assenta nos mesmos fundamentos biológicos: a ocitocina, a presença partilhada, a sincronização fisiológica. A boa notícia: o vínculo não nasce apenas da românce. Nasce da presença e do cuidado.

Na plataforma MAPASGEN

O Módulo 1 (Matching e Coparentalidade) inclui uma secção sobre compatibilidade biológica e estilos de vinculação. O Módulo 4 (Coparentalidade legal e Comunicação) oferece ferramentas para uma coparentalidade estruturada após separação.

Glossário

Ocitocina

hormóna e neurotransmissor libertado durante o contacto físico, a amamentação e a vinculação social. Central para o vínculo pai-filho e de casal.

Ovulação oculta

o fenómeno pelo qual, nos humanos, a ovulação não é visível externamente. Os biólogos evolutivos interpretam-na como uma adaptação para favorecer o investimento paterno duradouro.

HLA (Antígeno Leucocitário Humano)

complexo génico do sistema imunitário cuja diversidade entre parceiros favorece a diversidade imunitária dos descendentes. Avaliado inconscientemente pela preferência olfativa.

Gene OXTR

codifica o receptor de ocitocina. As suas variantes estão associadas a diferenças na empatia, no comportamento de vinculação e na regulação do stress social.